Vila Dias entre a esperança e a dúvida no restauro prometido por um investidor

 In Marvila, URBANISMO

No pequeno café situado na entrada da vila, o assunto não é a recente eliminação de Portugal na Taça das Confederações ou o rescaldo político do incêndio em Pedrógão Grande. No micro-cosmos da Vila Dias, um conjunto de 160 casas encravado na freguesia do Beato, a conversa gravita sobre o futuro da comunidade, comprada recentemente por uma sociedade privada que promete a reabilitação total dos imóveis, não para vendê-los ou anunciá-los no AirBnB, mas sim para que sigam nas mãos dos atuais moradores.

 

O combustível do debate bem que poderia ser o facto do setor privado está a fazer o papel do poder público. Mas, após décadas de abandono total, esse “detalhe” é encarado pelos moradores ainda com mais suspeita que celebração. Erguida em 1888, como residência dos operários da Fábrica de Fiação de Xabregas, a Vila Dias acompanhou a gradual derrocada do sector fabril no século passado, até se transformar, nas últimas décadas, num bairro popular. Desde então, a deterioração física tem-se somado à emocional e as pessoas que lá vivem coleccionam promessas não cumpridas e frustrações.

 

 

É a esse passivo concreto e de carne e osso que o engenheiro Morais Rocha, administrador da Sociedade Vila Dias, se está acostumar. Anónimo no balcão do café, ele acompanhou atento o rosário de queixas dos moradores à reportagem de O Corvo. Nenhuma delas causada por ele ou a empresa que representa, mas que, desde Maio, passaram a ser problema dele. Em menos de uma hora no local, Morais Rocha ouviu histórias de sanitas instaladas no meio da sala, de imóveis sem casas de banho e de cozinhas escoradas por madeiras, na iminência de desabar.

 

 

O desafio não parece desanimá-lo. “Esse local é uma riqueza e vamos reformá-lo todo. Para isso, destinamos um orçamento de 5 milhões de euros”, afirma o engenheiro. Morais Rocha enumera as melhorias que serão efectuadas: restauro das fachadas e pintura na cor original, o branco, de janelas, jardineiras e escadas, e a retirada total das parabólicas, o único item em número capaz de rivalizar com os problemas. Como a intenção é atrair gradualmente moradores mais jovens, a promessa é de que os apartamentos passem a ter finalmente acesso à internet.

 

Projecção do futuro próximo da Vila Dias. (DR)

 

Morais Rocha não esconde o orgulho de ser um ponto fora da curva no mercado imobiliário. “Isto aqui não é para turistas, não. É para os moradores”, ressalva, sem detalhar como será a contabilidade para rever o investimento inicial. Principalmente, ao levar-se em consideração o valor baixo das rendas para o “padrão” de Lisboa, entre 50 euros e 250 euros. Das 160 casas, 40 são devolutas e a expetativa é que estarão disponíveis para os novos inquilinos no final do ano, quando se deve terminar a recuperação total da Vila. Haverá ainda a cobrança gradual das várias rendas em atraso.

 

Quatro dezenas de apartamentos acolherão novos inquilinos. (DR)

 

“Muita gente deixou de pagar porque os proprietários não davam cara”, justifica uma das moradoras no acalorado debate no café, Esmeralda Santos. É dela a casa com a cozinha em risco de desabar. Esmeralda mora na Vila Dias há oito anos e conta que já lá levou desde a reportagem do Correio da Manhã ao atual primeiro-ministro, António Costa, quando era presidente da Câmara de Lisboa, para testemunhar o seu drama. E nada foi feito. Não fosse o marido a improvisar uma escora de madeira que invade o quintal do vizinho do andar inferior, tudo já teria ido abaixo.

 

O Corvo pergunta-lhe, se tivesse a oportunidade de falar com o proprietário, o que diria. “Que viesse visitar a minha casa, como outras que aí estão para verem realmente o cerne da questão”, responde ela, ainda sem saber que o mesmo estava ali, a menos de dois metros, apoiado no balcão do café. E foi justamente o que o empresário fez. Minutos depois, estava a observar com os próprios olhos “o cerne da questão”. Calmo, orientou a moradora como proceder e garantiu que, na próxima semana, o problema, que nem o tal jornal nem António Costa resolveram, estaria solucionado.

 

Vila Dias noutros tempos, quando as crianças eram presença comum. (DR)

 

Menos cétpica estava Maria Fernanda Neves, moradora da Vila Dias há 57 anos. “Acho que vai ficar muito bem, não é? Dizem que vão fazer e a gente tem que confiar”, acredita, menos preocupada com o restauro físico e mais com o da vizinhança. Nos últimos anos, alguns imóveis não ocupados foram invadidos e a área ficou mais insegura. “Espero que não ponham cá gente má. Isso aqui era uma família e deixava-se inclusive a chave na porta”, relembra, antes de se permitir um pequeno desabafo: “Queria mesmo que tudo corresse bem, para ter paz. É tudo o que eu quero”.

 

Texto + Fotografias + Vídeo: Álvaro Filho

 

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Showing 8 comments
  • Jorge
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    A Vila Dias tem sido eternamente adiada, de tal forma que apesar de estarem dentro de Lisboa até para terem tv ou internet precisam de parabólica.
    O local é propriedade privada mas também é cidade, e é pena que a CML tenha sistematicamente quebrado as promessas que faz os todos os anos.
    Resta-nos acreditar que o novo dono consiga o retorno do investimento sem retirar ainda mais direitos a estas pessoas.

    • Maria
      Responder

      Resta a duvida muito GRANDE

  • Catarina de Macedo
    Responder

    Louvo muito o que planeia fazer o Sr. Morais Rocha. Era bom que houvesse mais investidores com esta sensibilidade e investirem sem ser apenas no mercado turístico. Ao fazerem-no estão na realidade a dar um importante contributo para a cidade, pois permitem que os seus habitantes possam permanecer nela, sem se verem forçados a abandoná-la por não conseguir comportar as actuais rendas.

    É mais louvável ainda prestar-se a fazer algo que é da obrigação da CML, que parece mais interessada em investir nos espaços públicos relacionados com o turismo e terminais de cruzeiros, do que em salvaguardar os interesses dos seus habitantes. Os meus parabéns e agradecimento. Espero que o plano avance.

  • Maria
    Responder

    O Sr Morais fala em consertar escadas , janelas , pintar fachadas , e instalar Internet — pois muito bem mas então e os telhados q deixam passar a água q inunda as casas , os esgotos q não existem e os moradores para conseguirem viver c o mínimo de condições ligam -nos às águas pluviais ( há esgotos a correr p a linha do comboio )
    E nós moradores da Vila começamos agora a acreditar q um senhor q à tempos atrás veio dar ordem de despejo a pessoas idosas e sem maneira de se defenderem e semanalmente inventava um estratagema novo q até levou pessoas com contratos bem antigos a fazerem novo contrato , às q não o tinham fazia um contrato de 1 ano p no fim desse pudesse aumentar o q queria ou então a rua era o seu caminho …
    Neste momento achamos q o Pai Natal dá … mas não tanto assim pois essa sociedade não está na Vila por bem — convence as pessoas de q sim mas daqui a uns tempos irá acontecer o q está a acontecer na Mouraria = despejos c o pretexto de q precisam fazer as obras necessárias e por traz a venda a terceiros ou até ao próprio estado se se vier a concretizar a tal ponte ferroviária q talvez passará por aqui

  • Mónica Amorim
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    Respondendo à vossa reportagem (encomendada) com verdade é que esses senhores não querem alterar as humilhantes condições de vida a que continua sujeita a maioria dos moradores de Vila Dias, sendo que tudo indica estar em curso uma grande operação de especulação imobiliária para o local a que, esperamos, a Câmara Municipal de Lisboa não deixará de se opor.
    Porque cada dia que passa a situação se torna insustentável para quem é obrigado a viver nestas condições pois é um direito basilar dos cidadãos a uma habitação minimamente digna e ao respeito de normas legais imperativas.
    Estes senhores continuam a arranjar degraus de escadas quando as verdadeiras e prementes nessecidades básicas são telhados instalações elétricas e esgotos que correm a céu aberto pondo em causa a saúde pública e a segurança de todos os que ali habitam.

  • Mónica Amorim
    Responder

    Respondendo à vossa reportagem (encomendada) com verdade é que esses senhores não querem alterar as humilhantes condições de vida a que continua sujeita a maioria dos moradores de Vila Dias, sendo que tudo indica estar em curso uma grande operação de especulação imobiliária para o local a que, esperamos, a Câmara Municipal de Lisboa não deixará de se opor.
    Porque cada dia que passa a situação se torna insustentável para quem é obrigado a viver nestas condições pois é um direito basilar dos cidadãos a uma habitação minimamente digna e ao respeito de normas legais imperativas.
    Estes senhores continuam a arranjar degraus de escadas quando as verdadeiras e prementes nessecidades básicas são telhados instalações elétricas e esgotos que correm a céu aberto pondo em causa a saúde pública e a segurança de todos os que ali habitam.

  • Associação de moradores -AMVOB
    Responder

    A Vila Dias, outrora composta por cerca de 179 casas, onde as obras feitas pelos senhorios, Eng. José joaquim morais rocha e seus representantes, a RETOQUE – Restauro e Recuperação de Imóveis, Ldª, são meramente de “cosmética”. Estamos a falar de pessoas que apenas visam o lucro, enriquecendo à custa quer dos moradores, pessoas com fracos recursos culturais e económicos, quer do erário publico, desde logo porque as casas que foram objecto de alguma intervenção mais profunda foi graças aos arrendatários e/ou à Junta de freguesia do Beato.
    No entanto, basta(va) penetrar no bairro e entrar nalgumas habitações para se perceber a degradação, por falta de manutenção, com a agravante do aumento exorbitante das rendas,feitos pela Retoque.

  • Alberto Sequeira
    Responder

    Os artistas do costume…
    Estes senhores são os mesmos que em Janeiro de 2017 confrontaram todos os residentes que as rendas da vila iriam ser tabeladas pelo preço de mercado e que quem não aceitasse seria posto na rua!!
    Foram levantadas vairias questões na altura de pessoas que ali vivem há mais de 80 anos com fracos recursos economicos e a respostas destes senhores foi :
    Que não eram a santa casa que estavam ali para ganhar dinheiro, estes são os verdadeiros filantropos do século XXI.

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