Tejo, um rio de histórias

 In Cidade de Lisboa, CULTURA

Avião despenha-se no Tejo, numa imagem do livro retirada de “O Século Ilustrado”

 

Lisboa é, na maioria dos casos, a figura central dos quase sessenta episódios que fazem o livro “Histórias do Tejo”, do jornalista Luís Ribeiro. Editado em Novembro passado pela editora “A Esfera dos Livros”, o livro é um manancial de casos mais ou menos conhecidos, retirados da História ou da actualidade mais recente, cobrindo temas que vão desde os mitos da fundação da cidade, às batalhas navais ou ao naufrágio do “Tollan”.

Obra de um jornalista – galardoado em 2004 com o prémio nacional Jornalismo pela Tolerância –, o livro ganha com a acumulação de episódios quotidianos pesquisados, sobretudo desastres ou fenómenos naturais que fizeram primeiras páginas na imprensa portuguesa. É o caso do relato do estranho afundamento do cacilheiro “Tonecas”, que, em Dezembro de 1938, matou 12 pessoas e que foi retirado do fundo com o timoneiro ainda agarrado ao leme.

Ou do primeiro grande desastre aéreo ocorrido em Portugal, em 1943, quando um hidroavião se despenhou no rio após a explosão de um motor, fazendo 13 vítimas.

Muito mais graves foram o ciclone de 1941, que surpreendeu mais de duzentos trabalhadores agrícolas nos mouchões do Tejo, ou as cheias de 1967, com mais de 400 mortos, “o maior desastre natural desde o terramoto de 1755” – também aqui evocado.

Luís Ribeiro fala também de pessoas e compõe vários quadros de costumes alfacinhas. Entre as primeiras, sobressai a figura do grande nadador Baptista Pereira, o “homem-peixe” que, em 1953, fez a nado o percurso de Alhandra (terra natal) à Rocha de Conde de Óbidos e volta em pouco mais de 26 horas!

Nos segundos, destaca o pestilento e arreigado hábito lisboeta de vazar os dejectos no rio – tarefa no séc. XVII entregue às calhandreiras, escravas africanas que recolhiam o conteúdo dos penicos e, ao escurecer, o lançavam nas águas onde outros se banhavam. Na Lisboa seiscentista haveria mil destas mulheres.

Mais para a frente, o autor reúne poesia inspirada pelo rio. Alguma é assinada por Camões, Rodrigues Lobo, Cesário Verde e Fernando Pessoa. Um livro simples e despretensioso – à venda na generalidade das livrarias por 19 euros –, mas que fará o leitor ver o Tejo como outros olhos.

 

“Histórias do Tejo”

Luís Ribeiro

A Esfera do Livros

páginas: 304

PVP: 19 €

 

Texto: Francisco Neves  Imagem: “O Século Ilustrado”, 1943

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