Negócio de milhões causa incerteza no Mercado 31 de Janeiro

 In Avenidas Novas, URBANISMO

A apreensão é grande entre os vendedores do espaço comercial de Picoas. O fecho do mercado e a venda do edifício à Portugal Telecom (PT), para o anexar à sua sede, são dados como certos. E até se fala na verba que a autarquia terá recebido da PT: nove milhões de euros. Mas todos se queixam de a Câmara Municipal de Lisboa nada lhes dizer.

 

Texto: Samuel Alemão         Fotografia: Carla Rosado

 

Um inapelável sentimento de abandono. Os vendedores do Mercado 31 de Janeiro, em Picoas, ainda estão à espera que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) os informe sobre aquele que deverá ser o mais que provável fim daquela infra-estrutura. E, no fundo, lhes dê pistas sobre o seu futuro profissional próximo. Apesar de não haver qualquer comunicação oficial por parte da autarquia, todos dão como certo o encerramento da actividade comercial neste edifício, inaugurado há 17 anos, consequência da sua venda pela autarquia à Portugal Telecom (PT).

Será para ali que a empresa de telecomunicações deverá estender a operação da sede, situada no conhecido edifício laranja do Fórum Picoas, mesmo ao lado.  Não existindo dados concretos anunciados publicamente sobre a transacção, circula pelas bancas de venda a informação sussurada de que o negócio “já está fechado”, envolvendo uma verba a rondar os “nove milhões de euros”.  Será isso que os fiscais do mercado dizem aos vendedores.

“Eles estão a jogar com as vidas das pessoas, decidindo coisas sem nos terem em conta. Não é correcto que nos tratem como objectos”, critica Olinda Barreiros, 53 anos, três décadas levadas a vender peixe no mercado situado no coração da cidade, de segunda-feira a sábado. Mulher de discurso firme e pose a condizer, a gerente de uma da principais bancas de pescado replica um sentimento generalizado. E um rumor: “Consta que isto já foi vendido”. Muitos confirmam que é essa a informação transmitida oficiosamente por funcionários do mercado.

A ausência de esclarecimentos por parte do senhorio, a câmara, só vem avolumar aquilo que se diz. “Há aqui muita gente com a vida construída e responsabilidades assumidas, como casas para pagar, e que depende disto”, salienta Olinda, lamentando a falta de união dos vendedores. “O pior é ser cada um por si”, desabafa.

 
A vendedora, que paga uma renda mensal de mil euros pelo espaço que ocupa, correspondente a quatro bancas, e ainda o salário dos três funcionários, não quer ouvir falar sequer em mudança para outro sítio. Se lhe propuserem ir para um lugar longe dali, ela acha que tal será mais que um augúrio da anunciada morte do negócio — ao qual a crise económica veio intensificar as dificuldades, sentidas há muito. “Aqui, conheço os meus clientes e eles a mim. Se formos embora, perdêmo-los, de certeza”, diz.

É meio da manhã de um dia de semana e quase não se vêem clientes. Olinda culpa a permissividade das autoridades, “mas também das pessoas em geral”, ao que apelida de “fascismo das grandes superfícies, que não têm qualidade, mas destróem o mercado, os empregos e a sociedade”. “Eles estão a dar cabo disto tudo”, critica com amargura.

Razões mais do que suficientes para a levarem a considerar o fim da actividade. Cogitação a que não se entrega a irmã, Florbela, de 46 anos, instalada dois corredores ao lado. Por ser mais nova, como a própria reconhece, não lhe passa pela cabeça desistir. Afinal, começou nesta vida “aos 13 ou 14 anos”, com Olinda. Com ela trabalhou até há pouco, tendo agora abraçado o negócio em nome próprio.

Por ser fornecedora de alguns estabelecimentos no aeroporto, veria com bons olhos uma transferência para o Mercado de Alvalade, por este ser próximo dos seus clientes e por muitos o considerarem como o mais conceituado da cidade. Mas tal seria claramente uma alternativa. O melhor cenário contemplaria sempre a permanência no 31 de Janeiro, no qual “deveriam fazer obras”, pois começam a ser evidentes os sinais de desgaste no edifício.

O vendedor da banca ao lado, Carlos Oliveira, de 63, aponta para o elevador avariado “há muito” e cuja reparação estará a ser ignorada pelos serviços da autarquia. Carlos, que tem este ofício “desde miúdo” – excepto durante os quatro anos passados na guerra, em África –, é rosto da preocupação. Paga 700 euros mensais e ainda tem de tirar rendimento para ele e a mulher, que o ajuda. O fecho do mercado seria quase como uma condenação.

“Se nos cortarem as pernas, estamos tramados. Se fôr parar ao desemprego, eu e ela não temos direito ao subsídio de desemprego”, assegura. Tal como Florbela, Carlos recorda as promessas feitas pela edilidade de investir na valorização e promoção do espaço, quando foi inaugurado, em meados da década de 90 – substituindo o antigo mercado, agora ocupado pelo Saldanha Residence.

Estórias como esta, medos como este, ecoam em surdina, um pouco por todo o edifício. Ao contrário da imagem, geralmente buliçosa, dos mercados, no 31 de Janeiro impera uma espécie de silêncio resignado.  “Isto é como o senhor vê”, diz Dorinda, 65 anos, vendedora de frutas e legumes, no piso térreo. Sentada num banco alto, junto ao café do mercado, e de xaile nos ombros, a vendedora ocupa o tempo sobejante da falta de clientela conversando com uma conhecida.

Também Dorinda se queixa da falta de informação sobre o destino do mercado e de quem lá vende. “Ninguém nos diz nada, a câmara não nos liga”, lamenta a comerciante, que leva esta vida desde os 11 anos, iniciada no “mercado velho”. Também ela se opõe a uma mudança para outras paragens. “Aqui, mal ou bem, temos alguns clientes, que ainda têm alguma consideração por nós”, afirma. À volta, na área do Saldanha, já basta a profusão de supermercados e lojas chinesas de venda de frutas e legumes.

Negócio que ali, claramente, começou a cair “há muito”, diz Manuel Francisco, 62, colega de Dorinda há já três décadas. Manuel, que contempla o futuro como uma paisagem tão desolada quanto a que tem agora em redor, deixa um desabafo: “Deviam dizer-nos qualquer coisa, não custava nada darem-nos uma palavra”. Tal como para ele, para um talhante instalado numa das lojas ainda abertas, com 60 anos e que preferiu manter o anonimato, forçar a saída para outro lugar é apenas precipitar o fim. “Se isso acontecer, acabou”, diz, enquanto desmancha um frango.

O Corvo tentou ouvir explicações sobre este assunto, por parte da Câmara Municipal de Lisboa, mas, até à hora da publicação deste texto, nenhum esclarecimento foi dado.

 

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Showing 4 comments
  • Florbela Barreiros
    Responder

    Apenas a retificar o Nome da Olinda* e não Olina.
    E o Agradecimento de se preocuparem com a situaçao dos Pequenos Comerciantes
    Obrigado

  • Sonia Areias
    Responder

    A câmara municipal de Lisboa tal como tantas outras repartições do nosso estado,não estão minimamente preocupados com gente que se farta de trabalhar para lhes encher os bolsos,pois só estão interessados nos milhões que já devem ter ganho com o negócio!!!!!! É triste é que assim se vai matando a nossa tradição!!!! Os novos já foram embora do país e os que ainda restam cortam lhes tudo até á exaustão é triste ver o meu país assim!!!!! Boa sorte família!!!!!

  • Olinda Barreiros
    Responder

    Obrigado Pela Preocupação
    E uma forma de Os Clientes que faxam compras no Mercado Tradicional porque assim as divizas ficam em Portugal.
    Obrigado Olinda Barreiros *

  • Pedro Lopes
    Responder

    Sou cliente do Mercado 31 de Janeiro+-40 anos.
    È triste o que acabo ler.Falta de respeito pelos vendedores e clientes.Os senhores do poder politico e do dinheiro,brincam com as pessoas adultas,como as crianças brincam com os bonecos.A camara municipal de Lisboa,seja séria,contacte com os vendedores e diga a verdade,eu sei, só depois das eleições,vêem ao contacto depois de estar tudo resolvido.Convido os vendedores a organizarem-se e formarem uma comissão,e fazer baixo assinado com as assinaturas dos clientes.Depois fazer uma PREVIDENCIA CAUTULAR,no Tribunal pela mão de um advogado.Mas tudo isto seja breve.
    Pedro Lopes

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