Moradores da Ajuda dizem que obras danificam casas

 In Uncategorized

 

Moradores das imediações da Igreja da Memória, na Ajuda, acusam a Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) Lisboa Ocidental de fazer ali obras que têm causado fissuras e outros danos nas suas habitações. A intervenção da SRU, que abrange várias artérias, já tem mais de um ano, quando parte dela deveria não ter demorado mais de quatro meses.

A demora das obras é matéria de queixas ouvidas pelo Corvo a vários moradores deste antigo bairro lisboeta. Mas as queixas mais graves referem-se à falta de resposta clara por parte da SRU quanto à assunção de responsabilidades pelos danos aparentemente causados em vários edificios dos século XIX, pela trepidação da maquinaria.
Andar pela Travessa da Memória ou pela Rua João Castilho não é fácil por estes dias, tal é a confusão de diferentes trabalhos em curso e do tráfego de máquinas, escavadoras e veículos pesados, a par de carros paticulares e peões. É a Empreitada de Reabilitação do Espaço Público e Renovação das Infraestruturas da Zona A, iniciada em Fevereiro de 2012, parte da qual era, segundo moradores, para estar pronta em Agosto desse ano, embora ainda prossiga.
“Começaram tudo em locais diferentes e ao mesmo tempo, quando o anunciado era uma fase de quatro meses para a Trav. da Memória e outra empreitada de oito meses para outros arruamentos. Mas foram fazendo trabalhos novos sem os anteriores estarem acabadados. E agora é o caos. Há ruas abertas au trânsito, como a Rua Massano de Amorim, com máquinas e camiões de 30 toneladas a circular. Abriram valas junto a prédios muito antigos e com alicerces pouco profundos que estiveram muito tempo cheias de água que se infiltrou para debaixo deles”, queixa-se Paulo César, dono do café “Cantinho da Memória” e protagonista de um já longo diferendo com a empresa criada pela Câmara de Lisboa.
Paulo César tem fendas no seu estabelecimento e uma guerra aberta com a SRU Lisboa Ocidental. As suas queixas, conta, levaram a que fosse feita uma vistoria técnica ao piso térreo do “Cantinho”, que constatou ter havido um “assentamento” do mesmo. A inspecção, feita pela correctora de seguros Credite EGS, em Julho de 2012, produziu um relatório a 10 de Outubro seguinte  – data posterior à execução das valas, diz o queixoso – com recomendações sobre os cuidados a ter na execução das valas. Paulo César acha que as advertências pecaram por tardias.
O referido relatório defendia atenção especial à “contenção das paredes das valas, para que a estabilidade do edificado e arruamentos adjacentes fique garantida” e reconhecia perigo, “por eventuais vibrações impostas pelo equipamento de escavações”. O prédio de Paulo César teria, por isso, merecido ser “monitorizado ao nível de vibrações”. “Mas não fizeram nada disso”, garante o dono do café, instalado num pequeno prédio da segunda metade do século XIX..
Como as fissuras aumentassem, o morador reclamou e foi feita nova vistoria, a 23 de Novembro. Esta, para além de detectar o aumento da abertura de juntas já existentes, declara que “a causa próxima do agravamento das patologias reclamadas terá sido o tempo excessivo das valas cavadas junto das fachadas sul e poente do edifício, as quais poderão ter provocado algum assentamento diferencial”, escreve o engenheiro civil autor da diligência. Constatando a “fraca resistência” das fundações deste tipo de prédio, o relatório conclui que a “situação deveria ter sido acautelada pelo dono da obra”.
Pior caso parece ser o que se passa num rés-do-chão do nº11 da Rua  João Castilho. Os donos da casa (de 1893), Alexandre e Dina Reis, sentem um sobressalto de cada vez que passam no meio da sala da jantar. O chão cede sensivelmente, deixando supor que perdeu parte da sustentação. Aqui o assentamento do piso térreo foi grande. Terá sido outra vala inundada, contígua a este prédio, que “esteve meses rodeado de obras”.

 

Junto ao local onde, do lado de fora, foi feita a vala, a parede da sala está negra de humidade. Nesta rua, diz o casal Reis, a obra parou em Outubro passado e só recomeçou há pouco mais de um mês. Para além das fendas que vai ser preciso remendar, Alexandre tem a certeza de que vai ser preciso injectar cimento debaixo da sua sala. Agora, vendo a rua a ser refeita, ambos os residentes esperam que a construtora se lembre disso antes de estar a rua toda repavimentada.
Segundo Alexandre, funcionário de uma empresa de segurança, os executantes da empreitada “fazem obras sem nexo”, parando-as a meio para irem intervir noutro lugar e depois voltar ao anterior. “Por exemplo, aqui ao lado, no pátio Batista e no pátio Silva, puseram o piso duas vezes…” Também se queixa da vistoria pedida. “Mandaram duas cartas a avisar que vinham cá e nada. Só apareceram à terceira”.
Outra das queixas ouvidas na Travessa da Memória é, de facto, a de as vistorias marcadas pela SRU após reclamação de residentes não serem cumpridas na data combinada. Natalina Penha, moradora no nº13 da Rua João Castilho também afectada pelas rachas, recorda: “Fiquei em casa, à espera num dia em que tinha de fazer quimioterapia, mas eles não apareceram…”.
“Há pessoas a cair nos montes de pedra e brita que deixam por aí. Já vi uma pessoa de certa idade cair e os responsáveis da obra, que lá estavam ao pé, nem uma palavra para ela tiveram”, diz ainda Paulo César. O dono do café, e de algumas fracções de prédios na zona, queixa-se também da Polícia Municipal, que diz ter chamado para observar o estado impraticável da artéria, “transformada num autêntico estaleiro”. A diligência não terá corrido bem: “Vieram quase uma semana depois, argumentaram que uma pessoa tinha que se sujeitar e, quando protestei por dizerem isso e pela demora, castigaram-me com uma fiscalização” ao estabelecimento.
A Farmácia Moura, na Travessa da Memória, é como uma câmara de eco do mal-estar vivido pelos moradores. “São as nossas obras de Santa Ingrácia”, comenta a responsável do estabelecimento, Paula Salgueiro, que confirma serem muitas as queixas ouvidas aos clientes. “Isto está muito complicado e muito caótico, as pessoas queixam-se imenso. Depois de Alfama, este deve ser um dos bairros mais antigos de Lisboa e tem uma grande percentagem de moradores idosos para quem transitar no meio desta confusão é especialmente difícil”, comentou.
Um funcionário da SRU que atendeu o Corvo quando este tentou obter informações sobre estes casos, deu a entender que a empresa municipal irá fazer, no final da empreitada, reparações dos danos que sejam comprovados pelas vistorias feitas antes do começo das obras e após reclamações. Na Lisboa Ocidental SRU foi proposto o envio das perguntas por mail à presidente da empresa, Teresa do Paço. O Corvo assim fez, mas até à data não obteve resposta.

Texto e fotografia: Francisco Neves

Recommended Posts
Showing 2 comments
  • Sofia Montellano
    Responder

    Sou moradora no Bairro e acho uma vergonha. Parecem as obras de Santa Engrácia, não têm mais fim e para culminar este transtorno todo existe uma rua que não está contemplada ser arranjada que é provavelmente a pior da zona. TRAVESSA de PAULO MARTINS (http://goo.gl/maps/dCoVu), que como se poderá verificar no link que envio será a única a ficar por arranjar.
    Não se compreende situações destas numa zona que se quer que fique mais habitável e por pessoas que possam trazer benefícios ao Bairro.
    Obrigada

pingbacks / trackbacks
  • […] De qualquer modo, a empresa estuda a possibilidade de intervir em duas artérias não incluídas no plano inicial – travessas Paulo Martins e da Memória – onde poderá haver “obras por mais 2 a 3 meses”, disse Teresa do Passo, presidente da administração da empresa.  A informação consta de uma resposta da dirigente da SRU a um conjunto perguntas enviado pelo Corvo aquando da reportagem sobre as obras (Moradores da Ajuda dizem que obras danificam casas). […]

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search