Incubadora de Artes de Carnide abre portas a novos negócios criativos e à comunidade

 In Carnide, CULTURA, VIDA NA CIDADE

Uma vida nova para o que era, até há bem pouco tempo, um vazio urbano. No baldio ao lado da Avenida do Colégio Militar, junto à Quinta da Luz, em Carnide, estacionavam-se carros de forma desordenada e, em dias de jogos no Estádio da Luz, o local servia também como instalação sanitária a céu aberto. Agora, vê nascer a Incubadora de Artes de Carnide. “Queremos que seja um lugar onde as pessoas que têm ideias de negócio ligadas à criação artística e cultural possam aqui iniciá-las, mas que, ao mesmo tempo, a comunidade também disso possa beneficiar”, explica Paulo Quaresma, dirigente da associação Boutique de Cultura, entidade a quem caberá, em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), gerir o espaço resultante de uma proposta vencedora do Orçamento Participativo (OP) 2016, a inaugurar nesta segunda-feira (24 de julho), às 21h. Até 4 de agosto, há uma dúzia de vagas para preencher a sala open space, a partir de setembro.

 

A ideia principal do projecto é ajudar a transformar a criatividade individual em riqueza colectiva. Uma máxima que Quaresma, antigo presidente da Junta de Freguesia de Carnide entre 2002 e 2013, não se cansa de professar nas mais diversas declinações. “Queremos que seja bem presente a ligação deste projecto a todos os bairros da freguesia, a todos sem excepção”, diz, quando, ao guiar O Corvo pelas instalações da incubadora, aponta para os ímanes colados a latas de tinta estilizadas agora colocadas nas prateleiras da loja. Neles podem ler-se Telheiras, Bairro Padre Cruz, Horta Nova ou Quinta da Luz, núcleos que ajudam a formar um todo. A arte urbana que tem sido feita nas paredes do Bairro Padre Cruz, por alguns dos seus habitantes, por exemplo, pode ser comprada em forma de produtos ali vendidos. Um jovem artesão do mesmo bairro criou, aliás, o mobiliário que agora equipa o centro de inovação.

 

 

A loja será a montra do muito trabalho que se espera ver desenvolvido neste pólo criativo, instalado num edifício pré-fabricado com cerca de 200 metros quadrados e que se propõe estimular o surgimento de empresas e negócios na área criativa. As candidaturas para a sua incubação naquele local devem centrar-se em áreas como artesanato, pintura, escultura, desenho, serigrafia, fotografia, joalharia, antiguidades e restauro, tecnologias da informação e comunicação, design, conteúdos multimédia, gastronomia, artes performativas e artes visuais. Além disso, as empresas ali acolhidas terão de estar numa fase inicial, não podendo ter mais de dois anos de actividade. “Existe muita gente com boas ideias e não sabe como materializá-las. Estamos aqui para as potenciar e ajudar a sobreviver esses pequenos negócios que surgem nas áreas das artes”, explica Paulo Quaresma. E isso pode ser feito tanto através da “incubação física” como da “incubação não presencial”.

 

A “incubação física” prevê, a troco de 90 euros mensais, a ocupação permanente de um dos doze postos de trabalho individuais, com acesso aos serviços de apoio ao arranque e ao crescimento da actividade, por um “período normal” de um ano, prolongável até três anos. Além dos doze postos de trabalho da sala comum (cowork) e da loja, o novo pólo criativo de Carnide – que custará aos cofres municipais, através do OP, uma verba próxima dos 150 mil euros – tem ainda uma oficina, uma sala de formação e reuniões, um armazém e um espaço ao ar livre, situado nas traseiras, onde os artistas e artesãos podem desenvolver actividades mais ruidosas ou que requeiram maior liberdade de movimentos. A essas valências básicas, acrescem serviços como aconselhamento jurídico, fiscal e de negócios, que terão um custo acrescido a combinar. Todas esses serviços, incluindo o acesso à oficina, sala de reuniões e armazém, estarão também disponíveis para os não residentes, ou seja, a “incubação não presencial”.

 

 

“Não estamos numa lógica pura e dura de mercado. Queremos ser facilitadores dos pequenos negócios que surjam nesta área e pensar de que forma a comunidade onde nos inserimos pode beneficiar desta concentração de criatividade”, postula Paulo Quaresma, antigo autarca eleito pela CDU, para quem a necessidade de rentabilizar a actividade da incubadora e, assim, torná-la sustentável ao fim de um ano de actividade é objectivo imperioso. Tanto que, e ao contrário do que é comum na linguagem do PCP, é objectivo expresso da incubadora “promover o empreendedorismo, estimulando a criação de empresas e desenvolvendo o espírito empreendedor”. Eficácia que, de forma sintomática, se evidencia logo na criação do incubadora. “Talvez este seja o primeiro projecto do OP materializado dentro do ano civil a que diz respeito”, orgulha-se Quaresma, autor individual da proposta vencedora do OP, que depois se concretizou através de uma parceria entre CML e Boutique da Cultura.

 

 

João Oliveira, funcionário camarário e coordenador deste projecto, salienta também a necessidade de que as pessoas de Carnide, e em particular as da vizinha Quinta da Luz, se sintam ligadas à incubadora. Por isso, estão já a ser pensadas, para os próximos dois anos, acções regulares de formação viradas para a comunidade em diversas disciplinas artísticas, como a ilustração ou a costura criativa – isto para além daquelas destinadas aos regulares frequentadores da incubadora, privilegiando as áreas financeira e dos planos de negócio. O ênfase no espírito colectivo da incubadora e na sua rentabilização far-se-á ainda sentir através da imposição aos futuros utilizadores de que 20% da receita das suas vendas na loja reverta para este centro criativo – além de uma cláusula em que, durante a fase inicial dos negócios em estabelecimento próprio, terão que vender também produtos dos colegas.

 

Mais informação: www.facebook.com/boutiquedacultura/

 

Texto: Samuel Alemão

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