Festival Todos celebra a diversidade da Colina de Santana a 8, 9 e 10 de Setembro

 In Arroios, CULTURA, Santo António, VIDA NA CIDADE

Malabaristas a exibirem a sua destreza no antigo quartel da Guarda Nacional Republicana (GNR), na Rua Jacinta Marto, uma encenação que decorre numa sauna na Rua Luciano Cordeiro, visitas à Embaixada de Itália ou à Faculdade de Ciências Médicas, e um espectáculo de performance no Convento da Encarnação, à Calçada de Santana, são algumas das coisas pelas quais poderemos optar no programa do Festival Todos 2017, que se realiza entre 8 (sexta-feira) e 10 de Setembro (domingo), na zona da Colina de Santana. Se estas são propostas que decorrem no interior ou intramuros de edifícios, a nona edição da festa de artes que pretende celebrar a diversidade cultural de Lisboa manter-se-á fiel ao seu princípio de fazer do espaço público uma festa. Por isso, o Campo dos Mártires da Pátria, local central da Colina, voltará a ser o palco principal do festival, pela terceira e última vez. A cada três anos, ruma a outra área da capital.

 

A receita é a mesma desde a edição inaugural, em 2009, no Intendente: dança, teatro, música, comida, arte urbana, novo circo, visitas, performance e fotografia, sob o lema “Viajar pelo Mundo sem sair de Lisboa”. Há um programa feito para agradar a muitos e pôr em diálogo o maior número de pessoas. E o ponto de encontro é o mesmo desde que o festival se mudou para a Colina de Santana, em 2015. “O Campo dos Mártires da Pátria vai continuar a ser o centro de toda a actividade, o local onde as pessoas se vão encontrar, conviver, descansar, comer e partir para as várias actividades do programa, ao longo dos três dias. Além disso, será palco para dois espectáculos musicais”, diz a O Corvo o director-geral do Todos, Miguel Abreu, para quem esta área situada no coração de Lisboa, entre as avenidas da Liberdade e Almirante Reis, mas que poucos sabem apontar no mapa, se revela um lugar de “uma profunda riqueza e diversidade, com uma massa crítica de gente disponível para se ouvirem uns aos outros”.

 

A indefinição em torno do futuro dos hospitais ali existentes, uns no activo (São José, Capuchos, Santa Marta e Estefânia) e outros já encerrados à actividade clínica (Miguel Bombarda e Desterro), é exactamente a mesma que se sentia no momento em que o festival ali chegou, vindo de uma passagem de três anos pela zona da Rua do Poço dos Negros (2012-2014). Mas Miguel Abreu não tem dúvidas de que o Todos conseguiu contribuir para que ali se criasse um sentimento comunitário, ao longo deste triénio. “Havia pessoas que, apesar de viverem, há muitos anos, lado-a-lado, nesta área, não se falavam uns com os outros. E isso mudou, apesar de todas as diferenças. Há agora muita gente a descobrir as energias criativas que ali existem”, afirma o programador cultural, para quem a incerteza até acaba por ser positiva. “A minha opinião é a de que ainda bem que está tudo na mesma, melhor do que se soubesse que há n projectos imobiliários”. Uma referência à polémica que tem acompanhado o eventual destino a dar às unidades hospitalares.

 

 

Está tudo em aberto, e este continua a ser um local “marcado pela diversidade”, faz notar o director-geral do festival, embora haja ali uma “forte vertente relacionada com a ciência e a medicina”. Algo que tem transparecido, de forma clara, na programação do Festival Todos. Este ano, além da visita guiada à Faculdade de Ciência Médicas da Universidade Nova de Lisboa, no Campo de Santana, e da exposição dedicada aos 111 anos desta instituição, o pavilhão Panóptico do antigo Hospital Miguel Bombarda será anfitrião de um espectáculo de dança em relação ao qual Miguel Abreu confessa ter “grandes expectativas”. Em “Bacantes”, a coreógrafa Marlene Monteiro Freitas propõe um diálogo com as ceras patológicas do antigo Hospital do Desterro, agora parte do espólio do Museu da Dermatologia Portuguesa, situado no Hospital dos Capuchos. Será nos dias 9 e 10 de Setembro, pelas 19h30.

 

O pátio do Miguel Bombarda acolherá ainda aquele que o director-geral do festival considera ser o “grande espectáculo para toda a família”. “Halka”, do Grupo Acrobático de Tânger, com artistas marroquinos e franceses, está inserido na categoria de novo circo e promete mostrar aos que, a 9 e 10 (18h), ali forem “uma hora intensa de circo contemporâneo popular e democrático, cheio de humor, de proezas acrobáticas singulares que começam no sopro do canto e da música”. Depois da actuação, há lugar para um jantar de comida marroquina, no que se adivinha vir a ser uma grande celebração de diversidade gastronómica e cultural e de convívio. Laranja, pepino, couscous, canela, tâmaras e azeitonas serão presença certa, trabalhados pelas mãos de cozinheiros de diversas proveniências. Outro ponto alto será o espectáculo “Monument”, do colectivo francês de malabaristas Protocole, às 20h30 de 9 de Setembro, no antigo quartel da GNR da Rua Jacinta Marto. A interacção com os moradores da Colina de Santana e as suas narrativas constituirão o fulcro da actuação.

 

O Grupo Acrobático de Tânger promete espectáculo para todos (foto: Richard Haughton)

 

A programação teatral tem dois momentos altos em “Medo a Caminho” de Rui Catalão, 8 (21h) e 9 e 10 (17h), no edifício central do Miguel Bombarda, e em “Rifar o Meu Coração”, de Mónica Calle, 8 (20h) e 9 e 10 (16h e 21h30), na Sauna Apolo, na Rua Luciano Cordeiro. Neste promete-se “um ambiente de cumplicidade e partilha entre atores e espetadores, num espetáculo que questiona convenções e promove a intimidade, num registo entre a confissão e a festa” e para assistir é obrigatório envergar vestir fato de banho e chinelos. Uma incursão num território, a Luciano Cordeiro, marcado pela convivência de vizinhança nem sempre tangível entre casas de negócios de sexo e uma população muito envelhecida. Um desafio à altura da ambição criativa de Calle. “Pode correr muito bem ou muito mal”, graceja Miguel Abreu, que destaca também a importância da peça de Rui Catalão, interpretada por ele e pelo moçambicano Luís Leonardo Mucauro, residente na Margem Sul. “É o trazer a periferia para o centro, algo que nos interessa muito”.

 

Rifar o Meu Coração“, de Mónica Calle, entra numa sauna da Luciano Cordeiro (foto: Bruno Simão)

 

O grande espectáculo musical estará a cargo da Orquestra Todos, às 22h30 de 8 de Setembro, no Jardim do Campo de Santana. Composta por elementos de várias nacionalidades, a orquestra volta a reunir-se após um interregno de ano e meio e fá-lo em grande, convidando para o meio do palco a cantautora Aline Frazão. Um outro momento a não perder será a “visita guiada-passeio expedição-espectáculos” de três horas, denominado “Mulheres das Colina de Santana”, que começa às 17h de 10 de Setembro. “Baseada no livro ‘Mulheres da Colina de Sant’Ana’, de Bárbara Assis Pacheco, Rosa Reis e Célia Pilão (conhecedora de segredos da colina e a condutora da sessão), a visita guiada do Todos 2017 acontece num roteiro de toponímia em passeio pelas ruas, com paragens e com a devida pontuação, ornamentada por momentos musicais de mulheres fortes e dignas desta zona histórica”, promete-se, numa referência a um passado cheio de referências a “rainhas e santas, escravas e políticas, beatas e prostitutas, médicas, cantadeiras e figuras bíblicas”.

 

Aline Frazão junta-se à Orquestra Todos para um grande espectáculo (Foto: DR)

 

Mais informação e programação completa: http://festivaltodos.com

 

Texto: Samuel Alemão

 

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Showing 5 comments
  • Rui Carreteiro
    Responder

    Tiago André

  • Patty Ferreira
    Responder

    Quero participar

  • Joaquim
    Responder

    Festival Todos para… habitantes Nenhuns?! Habitante que era em Arroios desde os anos 60, fui forçado a sair. Motivo: prédios de habitação transformados em pensões, pousadas de juventude, casas de passe, onde a tranquilidade é impossível e a Lei do Ruído tratada como a farsa que é. Lisboa transformada em Feira, sem zonas habitacionais. Para divertir. Nunca para viver.

    • Beatriz
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      Concordo! Não há lojas, nada de comércio, apenas porta sim porta não mini mercados de nepaleses . o lixo e o cheiro a urina , na zona do intendente e ruas perto está o caos. O ruído da musica durante o dia e começo da noite não dá descanso. Por isto, muitas pessoas que vieram morar p o antigo bairro dos anjos , agora arroios, saíram e foram p campo de Ourique ou outras zonas mais limpas, mais tranquilas e com comércio de rua.

  • Beatriz
    Responder

    Os moradores apelam a limpeza das ruas, lavagem e a preocupação de arranjo das estradas nas ruas do antigo bairro anjos.mais comércio. Passeios onde possamos andar. OK?

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